Por que as crianças brasileiras não são alfabetizadas na idade certa? Endemia, pandemia e cura


Veveu Arruda
Diretor Executivo Associação Bem Comum
Maurício Holanda
Conselho Associação Bem Comum

A questão do analfabetismo produzido na própria escola é “endêmica”.
Já é conhecida dos professores e gestores educacionais brasileiros e já
foi medida em 2014, 2016 e 2019. Nos dois primeiros anos, pela ANA –
Avaliação Nacional de Alfabetização, e em 2019 pela Avaliação Amostral
de 2º ano do SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica.
Grosso modo, tratou-se de constatar o fato de que quase 50% das
crianças de 2º ano, de acordo com o SAEB-2019, e de 3º ano, nas duas
edições da ANA, encontravam-se em situação de não alfabetizados. No
entanto, outro traço desta situação endêmica é que os sistemas
educacionais demonstram “baixa imunidade” e não têm demonstrado
suficiente sensibilidade e capacidade de reagir.


Era, e ainda é, preciso alertar estados e municípios para a gravidade da
situação e apoiá-los na construção de caminhos para sua superação.
Neste sentido a Fundação Lemann, o Instituto Natura e a Associação
Bem Comum, com o apoio da B3 e da Fundação Vale, firmaram com
alguns governos estaduais uma proposta de cooperação técnica para
que estes implementem uma série de medidas no sentido de
estabelecerem parcerias com seus municípios e para que todos, juntos,
enfrentem o problema. O programa ganhou o nome de Parc – Parceria
pela Alfabetização em Regime de Colaboração – e já se encontra, apesar
da pandemia, em fase de implementação em 10 estados brasileiros.


Nos meses de setembro e outubro de 2021, foi realizada, em parceria
com os estados participante que adotaram a Parc, uma avaliação de
fluência leitora com 250 mil alunos pertencentes às respectivas redes.
Esta avaliação teve dois objetivos: estabelecer um marco do atual nível
de leitura depois dos piores efeitos da pandemia e usar as informações
para definir estratégias de redução dos prejuízos sofridos pelas crianças.
A avaliação de fluência leitora consiste em apresentar às crianças,
palavras, pseudopalavras – que são palavras inventadas, um texto
narrativo simples, adequado às condições de leitura de crianças em fase
de alfabetização. Esta modalidade de avaliação vem enriquecer o
repertório de avaliações de alfabetização já realizadas no Brasil, sendo
que tem surpreendido positivamente a aceitação dos professores a esta
modalidade.


Os alunos foram distribuídos em três níveis: o pré-leitor – aluno que não
consegue ler o ou lê, no máximo dez palavras num intervalo de um
minuto. O leitor iniciante – que lê de 11 a 60 palavras e pseudopalavras
em um minuto. E o leitor fluente, que, além das palavras e
pseudopalavras, lê textos com fluência. Os resultados foram os
seguintes: 73% de pré-leitores, 20% de leitores iniciantes e somente 7%
de leitores fluentes.

O efeito da pandemia, por sua vez, pode ser estimado pelos resultados
de quatro estados para os quais também existem dados para 2019. 
Nestes, o percentual de alunos no perfil pré-leitor tinha em média 52%
em 2019 e saltou para 73% em 2021. Para as crianças em idade de
alfabetização, a paralização das escolas e a ausência de outros recursos
de substituição às aulas consistiu num imenso agravante.


A sensibilização, o “estado de alerta” e o nível de compromisso que
alguns governos estaduais têm demonstrado ao procurar a parceria de
seus respectivos municípios e a cooperação técnica da Parc são um
importante indicador de que a já existente situação de endemia, assim
como os efeitos da pandemia, entraram na agenda política e serão
tratados com maior sentido de urgência. Trata-se de implementar uma
estratégia sistêmica, que simultaneamente dê atenção e apoio para
todas as dimensões do processo escolar e de aprendizagem. Isso
significa envolver o governador e sua equipe de educação, mobilizar os
prefeitos e os técnicos da gestão municipal, os gestores escolares e os
professores, usar bons modelos de incentivo para melhorar o
desempenho, apoiar todos com formação e, no caso específico do
professor, também com materiais didáticos complementares.  


O caminho da cura já é conhecido. Há municípios e estados brasileiros
que já o trilharam.

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